"Em algum lugar a cultura do amor é diferente. As crianças quando nascem são consideradas presentes de Deus, o bem mais importante. Neste lugar se compreende que quando uma criança se sente amada, ela se torna uma criança saudável. Nesse mundo foi estabelecido como primeira necessidade da criança o afeto. Nada pode ser feito com a criança se violar a lei do afeto. As crianças são banhadas de carinho, de cuidado, de presença, de afeto. Muito amor é praticado entre os pais e pelos pais. Quando essas crianças se tornam adultas, não se tornam adultos carentes. Tornam-se adultos maduros, sensíveis, saudáveis. Elas se tornam adultos prontos para viver um amor verdadeiro.
E, para eles, o amor verdadeiro acontece de uma forma natural e profunda. O homem e a mulher não buscam alguém para se relacionar, se apaixonar. Não há vazio no interior, eles não têm pressa. Eles conhecem uns aos outros e, se um encontro acontecer, um leve e sutil sentimento, e dele surgir uma afinidade de alma, eles se tornam amigos. Nesse mundo a amizade vem antes e faz parte do amor. No seio da amizade eles se conhecem de verdade, mais e profundamente. Eles deixam a relação amadurecer, desenvolvem a intimidade que, por sua vez, fortalece ainda mais a amizade. Um elo, uma cumplicidade, uma lealdade afetiva vai se cristalizando. Então, começam a se olhar nos olhos.
Tudo o que eles fazem um com outro passa ser feito também com o olhar. Se um segura a mão do outro, olham-se nos olhos. Se um presenteia o outro, olham-se nos olhos. Se um pede ao outro, olham-se nos olhos. Se eles riem juntos, olham-se nos olhos. Se um está triste, se choram, olham-se nos olhos. Eles aprendem a olhar-se, a amar-se através do olhar. E uma sincronia vai acontecendo sem nem mesmo eles perceberem. Uma dança, um ritmo entre os dois, um amor em um nível mais profundo vai se cristalizando a partir da amizade. Quando eles não precisam mais falar para se compreenderem, quando eles sentem puro amor através do olhar, então, eles estão prontos para fechar os olhos. Eles podem, então, fechar os olhos e se entregarem. A partir da entrega eles se amam. Tudo acontece com muita fluidez, abertura, inocência. Duas crianças se tornam um.
Essa não é a nossa realidade. Essa é uma realidade distante, de algum lugar mesmo. A realidade é que as pessoas se apaixonam e, no fogo da paixão, pensam ter encontrado o amor de sua vida sem ter encontrado o amor em si mesmo. E como amar o outro se ainda não amamos a nós mesmos?
A realidade é que todos são tão carentes de amor que existe essa ansiedade que antecipa a ordem natural de tudo, inclusive dos sentimentos. Muitos relacionamentos acabam, quando a paixão acaba. Outros relacionamentos continuam. As pessoas se casam, passam um tempo e o amor se perde no caminho, vivem de aparência. Deixam de beijar, de esperar pelo outro, de fazer uma surpresa, presentear, olhar nos olhos, abraçar, colar o corpo, sentir o outro, passear de mãos dadas, ficar junto por ficar, ser íntimo, amar feito criança. A realidade é que tudo isso acontece quando se está apaixonado. Quando a paixão acaba, tudo esfria, a vontade também. E não adianta forçar! Tem que ser natural e não é mais.
Porém, nada está perdido. Os seres humanos são carentes e se apaixonam. Que tal começar a aprender a amar quando a paixão acabar? Considerar o fim da paixão como o ponto de partida, a semente com o potencial do grande amor. Não é difícil se apaixonar. E é legal que isso aconteça. Só que a paixão não irá durar muito e se ela não se transformar em amor, será como uma semente que não germinou.
Quando a paixão acabar, consideremos o início da jornada do verdadeiro amante. Na jornada do verdadeiro amante as máscaras vão caindo, o outro vai se tornando como você é, com defeitos e qualidades. É necessário compreendermos e aceitarmos o outro para que a relação não chegue a um fim. Nesse aprendizado, comum aos dois, ambos evoluirão e um novo encontro pode acontecer. Os dois na relação podem recomeçar, decidir conhecer a si mesmo para se conhecerem, tornarem-se amigos de novo, para se reencontrar. O verdadeiro amante é aquele que faz a semente da paixão germinar, que transforma a paixão em amor, em amar. Em outro lugar isto não é possível. Ver a paixão em amor se transformar."
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